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Lana Del Rey - ‘Born to Die’

Não é fácil lidar com o título imposto pela mídia de ‘Próxima grande Revelação’. Parte dos artistas que passam por essa situação acabam optando por condenar todo o material de estréia transformando seu som em algo inteiramente comercial, até por que sabem o quanto serão cobrados pela gravadora. Se colar, perdem a identidade original e ficam nessa linha por um longo tempo. Se não colar, tentam voltar à escala zero para reconquistar os admiradores iniciais, mas, como a poeira já baixou, acabam por não receber atenção alguma.

Quando a história não é essa, falta identificação com o que é apresentado. Tomemos por exemplo a estrada de Clare Maguire, que apareceu em quase todos os artigos com o título ‘Novidades para 2011′. A moça, dona de uma voz entre Cher e Annie Lennox, chegou inclusive a ganhar o Q Awards na categoria Next Big Thing, além de ser apontada como Revelação promissora tanto pela MTV quanto pela BBC e sua tradicional listinha de fim de ano. Você provavelmente não conhece Clare, isso por que ela não é ninguém na cultura Pop. “Light After Dark” foi um fracasso, não conquistou a crítica, nem o público. Nesse caso, a chance foi por água abaixo. Histórias semelhantes aconteceram com Little Boots, Marina & The Diamonds, Natalia Kills e várias outras cantoras que só fizeram sucesso com um nicho mínimo de ouvintes. Mas ainda existem aquelas que deram certo. Jessie J, Adele, Florence + The Machine e Nicki Minaj são as que venceram a batalha e conquistaram nome no Mercado. Elas são inspiração para todas as garotas emergentes que acabaram de assinar um contrato e estão cheias de esperança no coração.




Eis que surge Lana Del Rey, cheia de baladas memoráveis, um visual brilhante e com a arte correndo por suas veias. A americana foi descoberta no Youtube pelo vídeo amador do single “Video Games”, não era a primeira postagem no canal dela, mas daquela vez seria diferente. As visualizações começavam a subir como foguete e a blogosfera começou a viralizar o negócio. Hoje o vídeo já ultrapassa as 34 milhões de exibições.

“Eu coloquei Video Games na internet alguns meses atrás por que era a minha favorita até então. Honestamente não seria o single, mas as pessoas responderam muito bem a tudo.”, disse Lana ao The Observer. “Escutá-la sempre me traz a tristeza de quando a compus. Ainda choro algumas vezes nas performances ao vivo.”


Foi aí que veio a visibilidade e conseqüentemente o contrato com a Interscope. Del Rey teve a oportunidade de trabalhar com gente grande, como o produtor Emile Haynie [vencedor do Grammy por "Recovery" do Eminem]. Daí veio o segundo single Born To Die, grandioso, forte, antêmico. As coisas mudaram. Agora era um investimento, não era mais sorte. O videoclipe da música é a maior prova do reconhecimento, cada detalhe é explorado com riqueza, a fim de convencer o telespectador. A direção é de Yoann Lemoine [Teenage Dream/Back To December], mas o conceito veio da cabeça de Lana.

Ela nunca escondeu sua paixão por cinema, portanto trabalhou duro no estúdio para que as músicas tivessem uma persuasão quase teatral. Lançado há alguns dias atrás, “Born To Die” é quase uma Trilha Sonora, segue um enredo onde todas as músicas vão se conectando. É polido por violinos, harpas, aparelhos digitais e batidas de Hip-Hop. Cada capítulo é um conto de amor novelístico que tem dois inconseqüentes como protagonistas de idas e vindas.

É engraçado que um álbum possa errar por sem bom demais. Segundo a crítica, “Born To Die” peca por ser exageradamente produzido e por deixar deslocada a persona desprotegida e inocente que Lana interpreta. As letras perdem a credibilidade quando tudo ao redor delas soa extremamente perfeitinho. Sabe quando passamos vários dias comendo em restaurante e ficamos com aquela fome de comer algo caseiro? É esse o caso. Lolita e Diet Mountain Dew, por exemplo, eram muito mais saborosas quando estavam no estágio orgânico de demo. Os instrumentais da versão finalizada engolem as duas bruscamente. As várias camadas fazem o recheio parecer inacessível. Talvez fosse diferente se uma Mariah Carey ou uma Whitney Houston estivesse nos vocais, Del Rey se esforça, mas é tímida e não consegue se sustentar com a altura de uma diva para competir com a produção luxuosa. Veja a apresentação dela no Saturday Night Live se ainda não viu. O grande momento virou pó pelo nervosismo excessivo. Com pose de bêbada e sem saber o que fazer com as mãos, o desconforto dela chamou mais atenção que a música.

Contudo, o disco é muito, muito mais que a trinca que o inicia. 3/4 dele são formados por melodias clássicas, feitas sob medida para marcar época. National Anthem é uma delas, na minha opinião será o grande trunfo do álbum nos charts. Enfatizada por uma orquestra de fundo, fala sobre fama, dinheiro, sexo e striptease no cenário do 4 de Julho, onde o céu está pintado pelos fogos nas cores da bandeira americana. Na sequência vem o set obscuro com “Dark Paradise”, “Radio” e “Carmen”, imensos destaques. Multi-talentosa ou não, Lana Del Rey é autêntica. Se guia pela própria mente e não pela dos outros. Levou suas referências para estúdio e criou exatamente o monstro que queria. Resta saber se esse monstro vai dominar o mundo inteiro ou se será derrubado pela multidão de detratores.

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Publicado
Levy Costa
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