A carreira de Madonna já está à beira dos trinta anos e, se comparada à de outros astros do Pop, foi marcada por raríssimos momentos de decadência.
Sem dúvidas, a fórmula é a adaptação sonora a diferentes épocas sem a perda de personalidade. A material girl teve seus grandes momentos no Pop dos
anos 80, na década seguinte se associou a nomes fortes para conquistar o título de Rainha do Pop e de 2000 para cá só se divertiu com as diferentes
possibilidades que podia seguir. Todos os álbuns dela são precedidos por uma campanha criativa que conecte o áudio com o visual, valorizando ao máximo
como o material soaria Ao Vivo em mais uma turnê gigantesca. Com ‘MDNA’ não foi diferente.
É o décimo-segundo disco da cantora, mas é o
primeiro que leva a marca da Interscope Records ao invés da Warner. Enganam-se os que interpretam o título apenas como “o DNA de Madonna”, é
uma referência clara à droga MDMA [um segundo nome para o esctasy], que produz sensações eufóricas de amor e intimidade no usuário. A intenção é
justamente esta. Madonna está mais vulnerável do que o comum e se abre com o ouvinte sobre assuntos sérios como seu divórcio com Guy Ritchie e a vida
mal-vivida das superestrelas.
“Fiz um esforço imenso para não soar como qualquer outra artista Pop em MDNA. Para mim, todas as músicas que tocam
atualmente nas rádios são homogêneas em qualidade. O resultado das colaborações com William (Orbit) é mais introspectivo, já Martin (Solveig) trouxe a
parte divertida, irônica e agitada. O aspecto dançante é inerente a todo o álbum. Eu não gosto de me repetir. Sou uma pessoa curiosa, que sempre está
interessada em aprender e prefiro pegar a estrada menos explorada. Essa é a minha natureza, então provavelmente é isso que me guia para as polêmicas.
Não sei. Não é nada intencional. Eu só trabalho no que me interessa.” – Madonna sobre MDNA em entrevista ao LA Times
O primeiro
single Give Me All Your Luvin’ trouxe um show de produção por conta do DJ Martin Solveig e colocou Nicki Minaj e M.I.A. nos créditos somente por
cumprimento de presença [o verso de cada uma delas não dura nem 15 segundos]. A colaboração só não foi um hit por que Gwen Stefani tinha feito melhor
há sete anos. Mas, de qualque forma, fez o seu papel como introdução. Falava sobre o amor, tinha a pegada live necessária para apresentações como a do
Super Bowl e um bom vídeo.
Desde ‘American Life’, os álbuns da artista são mais adaptativos do que inventivos. MDNA recupera a linha dançante
de ‘Confessions On A Dancefloor’ e a relê sob uma ótica mais moderna. Se você só escutou os singles, não é difícil imaginar que ele seja tão morno
quanto o predecessor ‘Hard Candy’. Give Me All Your Luvin’ e Girl Gone Wild fizeram um excelente trabalho em não destacar em nenhum
aspecto a personalidade forte das músicas da rainha do pop. Mas relaxe, o álbum é muito mais do que isso. Se no disco anterior ela deu bolo em sua
lista padrão de produtores, aqui ela os abraça novamente com a motivação de quem quer dar o seu melhor. Co-escrevendo e co-produzindo todas as faixas,
Madonna torna esse trabalho bastante íntimo.
Nicki Minaj faz questão de proclamar em alto e bom tom nos segundos finais de I Don’t Give
A: “Existe apenas uma rainha, e ela é Madonna”. Este posto nunca esteve em questão. A importância que é dada a cada nova fase é uma boa prova
disso. Polêmicas ficam em segundo plano na maior parte do tempo. Gang Bang, a mais forte faixa do álbum, é um dos poucos instantes que restam
para causar burburinhos. Ilustra uma amante descontrolada por ser traída, até que decide deixar a ordem de lado e assassinar seu companheiro com um
tiro na cabeça. Tudo é muito visual, como a cena de um filme de Tarantino com direito a tiros, vidros quebrando e um monólogo final.
Espere
encontrar um equilíbrio fabuloso de introspecção e euforia. O quarto quadrante do cd é composto por canções tristes, que falam sobre arrependimento e
paixões não-correspondidas, é impossível não se perguntar há quanto tempo não escutávamos Madonna tratando destes tópicos. Na brilhante balada
Masterpiece, vencedora do Globo de Ouro por melhor trilha original, ela se envolve com violões espanhóis para interpretar um amor impossível.
Já a sombria Falling Free aposta na simplicidade. Somente voz, cordas e um synth psicodélico fazem parte do instrumental. O final perfeito para
um disco que começa na pista de dança e termina com a maturidade que se esperava.